stylus, de novo

Nas tabuletas, a escrita é necessariamente efêmera. Para que os poemas possam ser enviados a um amigo ou reunidos em livro (designado como liber, libellus ou codex), é preciso que sejam transcritos no pergaminho. Tal tarefa é vista por Baudri como uma arte - o que supõe uma habilidade específica - e como um trabalho que merece remuneração.
— CHARTIER, 2007, p.30
Tabuleta de cera romana, usada também na Idade Média. 

Tabuleta de cera romana, usada também na Idade Média. 

A operação de conservação, aqui confiada à escrita, pode muito bem ser inteiramente mental e distribuir, entre os sistemas alfabéticos, as séries numéricas ou as divisões arquiteturais que estruturam a memória, os elementos que devem ser nela arquivados. O segundo objetivo da leitura é a meditatio, que relaciona o texto lido a outros, reencontrados nas “tabuletas da memória”. Se a leitura que permite a memorização pode ser silenciosa, feita em voz baixa ou em voz alta, sem que isso importe muito, a leitura que se afasta da linearidade do texto exige concentração e silêncio. Tal leitura é, evidentemente, mais própria aos textos de saber do que aos jogos da poesia, cuja versificação métrica requer uma voz que lê ou interioriza.
— CHARTIER, 2007, p.41-42

arte (des)objeto

A concepção dessa objetividade exemplar está por trás do diagnóstico da morte da arte, no final do livro. Argan via a criação artística como esse modelo por excelência das atividades produtoras, por meio das quais o homem fabricava objetos, organizava e atribuía significado ao mundo em torno dele. Mas os rumos da arte contemporânea - passando pela arte pop, pela arte conceitual, pelas performances etc. - apontavam em grande medida para o fim da obra enquanto produção de objetos. Basta lembrar, a esse respeito, o argumento do artista conceitual Joseph Kosuth de que os objetos eram conceitualmente irrelevantes para a condição de arte.
— Pedro Süssekind (2017, p.53)

permanecer na escola

Nas letras e nas ciências, as profissões de praxe, como magistério, pesquisa e algumas carreiras imprecisas, são de outra natureza. O estudante que as escolhe não se despede do universo infantil: antes, empenha-se em mantê-lo. Não é o magistério o único meio oferecido aos adultos que lhes possibilita permanecer na escola? O estudante de letras ou de ciências caracteriza-se por uma espécie de recusa que ele contrapõe às exigências do grupo. Uma reação quase conventual incita-o a retrair-se temporariamente ou de forma mais duradoura, no estudo, na preservação e na transmissão de um patrimônio, independentemente do tempo que passa; quanto ao futuro cientista, seu objeto é comensurável à duração do universo.
— LÉVI-STRAUSS, 2017, p.58

sub x counter

Hippies are usually understood as counter-cultural rather than subcultural: as John Robert Howard has put it, they ‘posed a fairly well thought-out alternative to conventional society’ and, importantly for the notion of a counter-culture, there was some sense that this alternative mode of living ‘would induce change in the rest of society’ (Howard 1969: 43; see also Roszak 1970). Very few subcultures have widespread social change on their agenda, nor (with some exceptions) do they imagine that society’s values ought somehow to reflect or absorb their own. But counter-cultures do, so that it is commonplace to suggest, for example, that hippies ‘made a lasting impact on the ethos of America’ (Miller 1991: 3) or that ‘hippie values’ are indeed broadly shared or symphatised with.
— GELDER, 2007, p.21-22
Hippies, "Summer fo Love", Califórnia (1967)

Hippies, "Summer fo Love", Califórnia (1967)

Teddy Boys, Inglaterra (50s)

Teddy Boys, Inglaterra (50s)

liminoide, juventude e culturas do contra

Entre inúmeras tribos da América do Norte, o prestígio social de cada indivíduo é determinado pelas circunstâncias que envolvem as provas a que os adolescentes devem se submeter na puberdade. Alguns abandonam-se sem comida numa jangada solitária, outros vão buscar o isolamento na montanha, expostos aos animais ferozes, ao frio e à chuva. Dias, semanas ou meses a fio, dependendo do caso, eles se privam de alimento, comendo apenas produtos grosseiros, ou jejuando por longos períodos, agravando inclusive o debilitamento fisiológico com o uso de eméticos. Tudo é pretexto para provocar o além: banhos gelados e prolongados, mutilações voluntárias de uma ou de várias falanges...
(...)
Pois não se trata, nessas tribos das planícies ou do planalto norte-americanos, de crenças individuais que se opõem a uma doutrina coletiva. A dialética decorre dos costumes e da filosofia do grupo. É no grupo que os indivíduos aprendem sua lição: a crença nos espíritos guardiões é própria ao grupo, e é a sociedade inteira que ensina a seus membros que, para eles, só existe oportunidade, no seio da ordem social, à custa de uma tentativa absurda e desesperada de saírem dela. (LÉVI-STRAUSS, 2017, p.40-41)
— Tristes trópicos, Claude Lévi-Strauss (1955)
Larry Clark, "Tulsa" (1971)

Larry Clark, "Tulsa" (1971)

los mejores tips de belleza

Ao lado de outros 19 autores brasileiros, participo da coletânea Nosotros, organizada por Katia Gerlach, com publicação em português, pela Oito e meio, e em espanhol, pela Díaz Grey. Cada um dos textos do livro narra um pedaço - de espaço, pessoas e tempo - da América Latina.

Fiquei com Manágua, na Nicarágua, e confesso que o processo de pesquisa foi, para além de didático, muito divertido. Entre outras coisas, topei com alguns vídeos estilo slideshow, com fotos e frases curadas por autores bem fãs do país. Na época em que eu escrevia, não sei se permanece igual, o Street View estava fora do país de Sandino. Fiquei pensando se seria sintoma de algum anti-imperialismo. Acontece que, quando comecei a esboçar o núcleo do que eu contaria, vi que a Avon, de alguma maneira pano de fundo da aventura que enreda os personagens, estava rolando bem solta por lá. E esse embate todo, mais os acidentes da vida comum, acho, renderam um resultado que me deixou feliz.

O lançamento da edição em português será no dia 14 de novembro, no espaço Oito e meio, no Rio. 

Por fim, o principal motivo do post: Lucas Hirai,  do ensaio "Deus vai te derrubar", fez este vídeo teaser para o conto: 

"Deus vai te derrubar" _MG_3131

Essa é provavelmente minha favorita da série. Não sei se o Lucas se deu conta - imagino que não - , mas existe alguma coincidência no fato de a garota vestir a camiseta com um "I love" alguma coisa. No álbum em que Estela mantém as fotos do que não vai se repetir, nem de um jeito diferente; em que aparece a imagem dela com Gabriel, seu professor; a fã de Bowie guarda a lembrança da hora e da vez diante do letreiro "I amsterdam", bem no estilo das camisetas que estampam o amor do turista programado. A foto cresce quando revela um flagra cotidiano, quando descobre o que pode restar de surpresa naquilo que parece inevitável. 

_MG_3131.png

Tem ainda o número da foto, que mantive propositalmente no título do post. Em Um céu diferente daquele de lá, no conto "Vinte e dois anos", o narrador esboça uma microteoria sobre os números que somam quatro, herdada do convívio com uma amiga japonesa, pra quem os sons de 4 e de morte coincidem. 

É verdade que 3131 soma oito. Acontece que, quando a gente topa brincar de superstição, todo sinal é sinal - e é impossível não ler esse 3131 como dois 4 seguidos. Em "Deus vai te derrubar", Estela vive cercada por um destino quadrado, que não aponta para muitas saídas. 

"Deus vai te derrubar"

"Deus vai te derrubar" é um conto de Até de repente. Pra minha sorte, quando leu o texto, o Lucas Hirai teve vontade de clicar uma série a partir dali. Vou reunir o resultado no blog, com comentários meus, apontando rastros que, na minha imaginação, aproximam um do outro. 

Alguns posts repetem o que escrevi no Instagram. Outros acrescentam pontos, no melhor estilo app sem fio. 

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Em "Deus vai te derrubar", Estela, ajudada por sua enfermeira, faz um trabalho de fotomontagem motivado pelo Poetismo, "movimento" da vanguarda theca. Usa uma foto sua como barco para uma porção de fotos com Estelas menores. Um medo enorme de morrer afogada antes de alcançar a praia.

  

Looking up. Reading the Words

My Dear One! When you are lying in the grass, with your head thrown back, there is no one around you, and only the sound of the wind can be heard and you look up into the open sky—there, up above, is the blue sky and the clouds floating by—perhaps this is the very best thing that you have ever done or seen in your life.
— Ilya Kabakov
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Relâmpagos

Me lembro bem da primeira vez que tive contato com um livro, um romance, do Trueba. Era um período de problemas e crises ligeras, quando eu flutuava entre viagens utópicas e aulas boas, esquisitas, em Barcelona. Era o tempo em que eu tinha tempo de ir quase todos os dias à praia, no verão, para nadar crawl de ponta a ponta, desviando o olhar para a areia, de tanto em tanto, tratando de vigiar meus documentos e o dinheiro, enterrados sempre próximos, mas não embaixo, da minha camiseta. Penso e vejo o sol, de novo; as minhas escolhas por evitar as escadas automáticas, no metrô, ao longo do caminho - existia alguma disposição natural para tudo o que, inclusive preguiçosamente, sublinhasse a vontade de vida. 

É provável que justamente essa vontade tenha estimulado a leitura, entusiasmada, de Cuatro amigos, livro que peguei emprestado da minha irmã, por cima de um comentário ambíguo, porque fora um best seller na Espanha, com uma quantidade imensa e excessiva de gírias, explicou ela, que fazem o livro soar bobo e adolescente diversas vezes. Mas aí, acho agora, achei também enquanto eu lia, esfarelando o corpo molhado com os grãos de areia; aí, repito, ficava a isca que chegou em mim: eu era bobo e adolescente, sendo bobo e adolescente, crescendo e envelhecendo, bobo e - tivesse como - efervescente para sempre. 

Então li a história sobre os quatro amigos, como pausa entre leituras de Cortázar, Ramón Ribeyro, Echenique e Sábato, com uma urgência reveladora sobre as minhas bobeiras e, ao mesmo tempo, a minha profunda satisfação com a maneira como Trueba faz as saudades infiltrarem diálogos bestas, que não se repetem, nem depois, nem mais. E assim eu encontrava a saudade, saudade que sempre tive das coisas que dividi - e me dividiram entre pessoas de quem guardo as melhores lembranças, ainda que sejam as melhores por serem as únicas que eu pude ter. 

Trueba escreve sobre a amizade.

Foi diante desse pano de fundo que li, alguns anos mais tarde, o incomparável Saber perder, dos preferidos da vida jovem adulta que acolhe os últimos respiros do tudo ainda pode acontecer, caramba. E, página a página, selecionava trechos que postei num blog velho, com alguns poucos leitores fiéis pedindo indicação sobre fonte e tradução.

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Por isso, na semana passada, comprei a recém publicada versão nacional de Blitz, livro que estava separado na lista que precisava ir buscar, ou pedir para trazer da Espanha. É um romance curto, breve, numa edição gostosa de folhear, entre mancha, imagens e ilustrações. É a história de Beto, da separação de Beto durante a viagem para a final de um concurso de paisagismo, em Munique. O tempo é o tempo da crise sem fim da Espanha, do desencantamento com o projeto de uma Europa humana, forte e universal. Nada disso. Beto anda inseguro com os caminhos profissionais e desmonta ao ser trocado por um cantor uruguaio, ex-namorado de Marta, agora sua ex-namorada, tão linda, tão linda que nunca vi igual - lemos, quase no fim da trama, quando Beto e um arquiteto rival dividem a mesma fileira de poltronas no avião. 

Até o código da reserva do voo de volta lembrava que tudo andava mal: M4RTA.

No percurso do protagonista, despedaçado por uma vida treintañera que começa a apontar para a dispersão da esperança, fatal, Beto se envolve com uma das organizadoras da premiação, alemã, divorciada, podia ser a sua mãe. E, assim, apesar de a orelha destacar o tom tragicômico das piadas que atravessam os encontros entre quem existe no livro, o que fica, de novo, é o jeito doído que Trueba encontra para mostrar o bonito da vida acontecendo, e se despedindo, inevitavelmente. 

Sempre me lembro, continuei, de algo que ouvi acerca de Buñuel: ele falava que era ateu, que não acreditava em Deus, salvo no deus inventado pelos homens, na mentira que erguiam para se consolar.

Europe, she loves

Já há um tempo, tinha visto o trailer de Europe, she loves, filme do diretor suíço Jan Gassman. Pelo que tinha entendido, o filme confrontava a dureza de um continente em crise - econômica e todas as demais crises herdeiras, correlatas - com certa frieza no relacionamento entre gregos, espanhóis, estonianos, irlandeses. Europa ama, mas maltrata.

Vendo o filme, fiquei com a sensação de que, no fundo, os paralelos entre uma decadência financeira e a especulação sobre a falência do amor em tempos hipermodernos, construídos ao longo das revelações e conturbações sobre os relacionamentos dos pares dos diferentes países, são, na verdade, uma convocatória de esperança, mesmo que agonizante. 

É nesse sentido que a trilha do Library Tapes caiu lindo demais. 

todos os dias

Julia tinha certeza de que o mundo cabia no seu pensamento. Aí, vieram as dores de cabeça. A preocupação, o remédio, a falta de sono, a tristeza, a desesperança. E tudo o que ela sabia ficou pequeno demais para explicar a imensa falta que sentia, todos os dias. 

do mesmo lado

Tanta coisa acontece assim. É nessas horas que a gente percebe não ser tão diferente dos outros, ao menos não tanto quanto repetimos, em silêncio, olhando alguém a quem jamais desejaríamos bem. 

Vi Paula atravessando a rua, segurando o lenço amarelo enroscado no pescoço. Não consegui lembrar a cor da nossa roupa na última noite dela em São Paulo, dois anos antes. Ela não me viu. Entrou pela porta principal, viajou pelo salão, até eu acenar com a mão esquerda, movimento que confundiu o garçom. Pedi um beirute - para não ser indelicado com o rapaz, ganhei permissão para ser indelicado com ela.

- Você continua igual.
- Já achei que a gente mudava, que a gente continuava igual. Já achei isso tudo. Agora, não acho nada. Só sinto falta permanente de toda nossa impermanência, no que ela tem de igual e de diferente.
- Nossa, vamos começar assim?

Toquei a ponta do garfo sobre a mesa. Era uma maneira de sentir o avesso da minha pele, cada vez mais melancólica por dentro. Começava nas extremidades, corria não sei que caminho, mas cobria o corpo inteiro. Há pouco tempo, chegara à conclusão de que isso explicava a mania que eu tinha de roçar as pontas das unhas do indicador no contorno dos meus lábios. Muita gente dizia que era tique, mas me sentia tão consciente em relação ao gesto, que não casava com a definição que tinha para a palavra.

Paula havia viajado durante dois anos. Sempre me perguntei com que dinheiro. Trocamos alguns e-mails durante esse período. Paula tinha trabalhado numa granja no interior da Holanda. De lá, escreveu que o Alex, um de seus melhores amigos da adolescência, morrera, doente. Pensei em nós três, numa noite na Paulista, coincidindo no refrão de uma banda inglesa da qual perdemos as pistas. Esse tipo de derrota, a morte do amigo, a música que vai embora; esse tipo de perda, das pistas dos outros, que são pistas da gente, vai lentamente esvaziando o sentido dos acontecimentos que tantas vezes nos encheram de sentimento. 

- Qual é o plano?
- E tem plano? - respondi, depois de uma pausa relativamente longa, numa conversa de dois.
- Não tem, né? Tá tudo meio assim. De um lado, ficou todo mundo que eu não vejo mais. O Rodrigo casou, assinou carteira e ficou refém da mensalidade da escola. Ele, o Diou, a Camila, a Ju. E o Lucas? Não soube mais. 
- Do outro lado, estamos nós. 
- Será?
- Será o quê?
- Que ficamos do mesmo lado?
- A gente sempre soube, acho, e teve medo, lembra?, de perder a opção de ser sozinho.