Loving Vincet

Li uma nota sobre esse que seria o primeiro filme integralmente produzido a partir de pinturas. Do que escreve a BBC, o mais divertido provavelmente será ver e ouvir as entrevistas cedidas pelos personagens das telas do Van Gogh. Hibridismo midiático a favor da imaginação, da fervura do caldo da cultura. 

Antropofagia

Nós somos contra os fascistas de qualquer espécie e contra os bolchevistas de qualquer espécie. O que nessas realidades políticas houver de favorável ao homem biológico, consideramos bom. [...] Como a nossa atitude em face do Primado do Espiritual só pode ser desrespeitosa, a nossa atitude perante o marxismo sectário será também de combate. [...] Quanto a Marx, consideramo-lo um dos melhores “românticos da Antropofagia”.
— Revista de Antropofagia nº1 (1928)

Criar é criar a si mesmo

Marx participa plenamente do desenvolvimento desse programa ao mostrar que a produção de bens materiais (a poiésis) e a produção de si mesmo através de práticas individuais (a práxis) se equivalem dentro do quadro geral da produção das condições de existência da coletividade. A arte moderna, e é essa sua principal virtude, nega-se a considerar o produto acabado e a vida a ser vivida como separados. Práxis igual a poiésis. Criar é criar a si mesmo.
— (BOURRIAUD, 2011, p.14)
Picabia. Galipette.

Picabia. Galipette.

um fim

Conceitos do bem e do mal são apenas meios para atingir um fim.
— Fante, "Um sujeito monstruosamente esperto" (FANTE, 2015, p.87)

Formigueiro

Os homens são de operação ou de manutenção. Operação e manutenção do formigueiro e das formigas. Se um operário, um comerciante ou um banqueiro são criaturas de operação, as que fazem os túneis para a circulação dos alimentos, dos objetos, dos veículos, dos papéis, do dinheiro e da merda, os médicos, por exemplo, são os encarregados da manutenção, do bom estado de saúde e da eficiência social das formigas obreiras.
— (FREIRE, 2012, p.44)

Linguagem dentro da linguagem

O poeta consagra-e e consome-se, portanto, em definir e construir uma linguagem dentro da linguagem; e a sua operação longa, difícil, delicada, que exige as qualidades mais diversas do espírito e que nunca se acaba, da mesma forma como nunca é exatamente possível, tende a constituir o discurso de seu ser mais puro, mais poderoso e mais profundo em seus pensamentos, mais intenso em sua vida, mais elegante e mais feliz em suas palavras que qualquer pessoa real. Essas palavras extraordinárias são conhecidas e reconhecidas através do ritmo e das harmonias que as sustentam e que devem estar tão íntima e tão misteriosamente ligados à sua produção que o som e o sentido não possam mais separar-se, correspondendo-se infinitamente na memória.
— (VALÉRY, 2011, p.28)

...

Antônia e Felipe se sentaram na mesa mais ao fundo. Pediram dois rodízios. Antônia escolheu água mineral, sem gás, com muito gelo e limão. Felipe agradeceu. reforçando que não bebia durante as refeições.
- Anda tudo tão esquisito.
- Em que sentido?
- O nosso tempo, esse tempo, a cidade.
- Chato, né?
- ... 
- É que seu final de ano foi muito conturbado.
Enquanto ouvia essas últimas palavras, tentando evitar o contato com dores tão recentes, Felipe desviou o olhar até a janela, estourada com a luz de um mês de abril excessivamente quente. Pouco antes, de manhã, estivera, acidentalmente, numa galeria, folheando livros, vendo-lendo-ouvindo um jeito ambiente de criar poemas com efeitos de pedal e guitarra. Aquilo tudo, numa espécie de liturgia compartilhada entre vinte pessoas, não mais; o silêncio de um encaixando na respiração do outro, e a distração sendo o verso da comoção de alguém; aqueles dedilhados derramando mundo, falando de coisas que só revelamos quando não há palavra; ah, a palavra, seguiu pensando Felipe, reparando num fio não domesticado na sobrancelha de Antônia; aqueles sons, aquela harmonia sintetizada com uma delicadeza tão compatível com o que entrega a natureza, e a inevitável careação com os cortes fundos que provavelmente ainda sangravam para dentro - caramba, Felipe teve a impressão de uma sombra grande na janela, um avião -; aquela manhã, toda ela, em cada detalhe, levantara, mas derrubara o dia, dando a dimensão da construção permanente da vida, bonito, mas tendo a saudade como fatura, meu Deus. 
- Me perdi agora.
- Posso dar um gole?
- Cuidado para não impregnar o copo com cheiro de sashimi.
- Pode deixar. Mas vou desistir de tentar pedir um beijo. 
- ...

A gramática, depois

E enquanto tocava aquela música, quando chegava o refrão, quando emendava palavra em palavra, que, sendo tão melodia, não deixava de ser significado, de ser sentido, sentida; era sempre o mesmo jeito de perceber que as coisas gritam de longe, porque passam, e o que chega é o eco, e eco é sempre triste, porque supõe uma curva no tempo, inevitavelmente descendente no final. O que pode ser isso que ganha forma numa música, sem deixar de ser etéreo, mas gatilho de tanta lembrança esfumaçada, carregada de matéria que foi? Aí André gritou: 
- Vai, Luísa. Experimenta, Luísa. Vê se não acontece com você.
A melodia, primeiro. A gramática, depois.

HO

Cúmplice leitor, que este tapete trançado seja para você um tapete voador.
— (SALOMÃO, 2015, p.13)