Depois é sempre muito tarde

A gente perdia as horas
pensando no mundo que seria
se a maçã fosse cor
de uva
e o sapato, de algodão

Chegamos a ter certeza
a gente alcançaria o céu
algum dia
e visitaríamos o fim do mar
sem precisar viajar

O jogo de tabuleiro
ganharia sensualidade
Jogando online
estaríamos mais à vontade
para gozar em paz

E planejamos experimentar
o Bonzo que o Trica comia
E a poesia
antiqualquer coisa
abriria nosso caminho
para uma hipersensibilidade
dos extraordinários

Não mataríamos ninguém
viveríamos da vida
sanguessugas
picada de saúva
sorvendo a beleza
que é poder sentir
a dor, que seja

Celebraríamos picnics
surpresa
no maior parque da cidade
em horário proibido
um bote inflado
Terminando sujos e molhados
se a amizade vale a pena

Não trocaríamos a coisa
pela palavra
Não abandonaríamos o lugar
o cheiro, o calor, a luz ardendo os olhos
pela condenação
de querer inventar
quando já não aconteceria

Tudo obedecendo
a um tempo mágico, interminável
Indefeso diante
da teimosia
de ser sempre
e que acaba

Então
na volta da lanchonete barata
suficientemente perto de casa
olhando
míopes
no outro lado da calçada
suporíamos

o amigo

do algodão
do mar
da ração
do tabuleiro
da porra
da poesia
e da dor e da condenação
de narrar a vida longe das coisas vivas

Apagado por um presente
tarde demais
pra ser
o que
o futuro do passado
seria
um dia