Quando eu descobri que era existencialista

Entre os 20 e 23 anos, tive um casal de amigos que, melodicamente, vou chamar de Rubens e Raquel. Por diversos fins de semana, saíamos radiantes com a ideia de que éramos capazes de inventar uma noite, um jeito de fazer da noite uma noite do nosso tempo, e de fazer esse tempo ser mais nosso. No fundo, nos sentíamos prontos para antecipar o tempo que, de alguma maneira e em algum momento, viria a ser o tempo dos outros. Evitávamos repetir os lugares, os percursos e até a combinação das palavras de “todo mundo”, porque, assim, estaríamos justamente mostrando que era possível, e desejável, fazer diferente, ser diferente - sendo como a gente.

Numa dessas noites, nos imaginando longe do baile branco fora da média, de onde particularmente eu nunca realmente sairia, sentamos para comer num café chique, depois de ter filmado alguns depoimentos em bares, filas e calçadas, sobre o significado do amor. Se existe, o que é? Se não se define, ainda seria?

Raquel e Rubens, talvez nessa ordem, amaram-se. Ou acreditaram que estavam se amando. Ou tanto faz.

Os registros sobre o amor que capturamos em VHS estragaram no quarto dos fundos de uma casa grande no Butantã. Mas a conversa que tivemos, os três, continuou, ou eu continuei, como solilóquio, conforme aquilo bateu, e continua a bater, em mim.

O Rubens declarou que nós éramos existencialistas. Engatinhar dos anos 2000. São Paulo. Era um pedaço pequeno de São Paulo, era a procura, numa outra Paulista, pelo lado B da cidade com mais lados que já vi no mundo. Raquel e eu estávamos caminhando para terminar nossas faculdades; Rubens nunca foi estudar depois do supletivo. Mas era quem mais tinha lido entre nós, e entre os nossos de quem nos queríamos diferentes.

“Nós temos certeza de que, sendo o que somos, criamos alternativas para a maioria em quem não nos reconhecemos”, disse ele, da maneira calma com que sempre disse as coisas que disse pra mim. “Não estamos amarrados a nenhuma ideia que quiseram pra gente; vamos fazer da vida o que a vida que a gente imagina pode ser”.

Se existe essa vida, o que foi? Se não se define, teria sido?

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Quando dizemos que o homem faz a escolha por si mesmo, entendemos que cada um de nós faz essa escolha, mas, com isso, queremos dizer também que ao escolher por si, cada homem escolhe por todos os homens. Com efeito, não existe um de nossos atos sequer que, criando o homem que queremo ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem conforme julgamos que ele deva ser.
— Sartre, 1945

permanecer na escola

Nas letras e nas ciências, as profissões de praxe, como magistério, pesquisa e algumas carreiras imprecisas, são de outra natureza. O estudante que as escolhe não se despede do universo infantil: antes, empenha-se em mantê-lo. Não é o magistério o único meio oferecido aos adultos que lhes possibilita permanecer na escola? O estudante de letras ou de ciências caracteriza-se por uma espécie de recusa que ele contrapõe às exigências do grupo. Uma reação quase conventual incita-o a retrair-se temporariamente ou de forma mais duradoura, no estudo, na preservação e na transmissão de um patrimônio, independentemente do tempo que passa; quanto ao futuro cientista, seu objeto é comensurável à duração do universo.
— LÉVI-STRAUSS, 2017, p.58

sub x counter

Hippies are usually understood as counter-cultural rather than subcultural: as John Robert Howard has put it, they ‘posed a fairly well thought-out alternative to conventional society’ and, importantly for the notion of a counter-culture, there was some sense that this alternative mode of living ‘would induce change in the rest of society’ (Howard 1969: 43; see also Roszak 1970). Very few subcultures have widespread social change on their agenda, nor (with some exceptions) do they imagine that society’s values ought somehow to reflect or absorb their own. But counter-cultures do, so that it is commonplace to suggest, for example, that hippies ‘made a lasting impact on the ethos of America’ (Miller 1991: 3) or that ‘hippie values’ are indeed broadly shared or symphatised with.
— GELDER, 2007, p.21-22
Hippies, "Summer fo Love", Califórnia (1967)

Hippies, "Summer fo Love", Califórnia (1967)

Teddy Boys, Inglaterra (50s)

Teddy Boys, Inglaterra (50s)

liminoide, juventude e culturas do contra

Entre inúmeras tribos da América do Norte, o prestígio social de cada indivíduo é determinado pelas circunstâncias que envolvem as provas a que os adolescentes devem se submeter na puberdade. Alguns abandonam-se sem comida numa jangada solitária, outros vão buscar o isolamento na montanha, expostos aos animais ferozes, ao frio e à chuva. Dias, semanas ou meses a fio, dependendo do caso, eles se privam de alimento, comendo apenas produtos grosseiros, ou jejuando por longos períodos, agravando inclusive o debilitamento fisiológico com o uso de eméticos. Tudo é pretexto para provocar o além: banhos gelados e prolongados, mutilações voluntárias de uma ou de várias falanges...
(...)
Pois não se trata, nessas tribos das planícies ou do planalto norte-americanos, de crenças individuais que se opõem a uma doutrina coletiva. A dialética decorre dos costumes e da filosofia do grupo. É no grupo que os indivíduos aprendem sua lição: a crença nos espíritos guardiões é própria ao grupo, e é a sociedade inteira que ensina a seus membros que, para eles, só existe oportunidade, no seio da ordem social, à custa de uma tentativa absurda e desesperada de saírem dela. (LÉVI-STRAUSS, 2017, p.40-41)
— Tristes trópicos, Claude Lévi-Strauss (1955)
Larry Clark, "Tulsa" (1971)

Larry Clark, "Tulsa" (1971)

Relâmpagos

Me lembro bem da primeira vez que tive contato com um livro, um romance, do Trueba. Era um período de problemas e crises ligeras, quando eu flutuava entre viagens utópicas e aulas boas, esquisitas, em Barcelona. Era o tempo em que eu tinha tempo de ir quase todos os dias à praia, no verão, para nadar crawl de ponta a ponta, desviando o olhar para a areia, de tanto em tanto, tratando de vigiar meus documentos e o dinheiro, enterrados sempre próximos, mas não embaixo, da minha camiseta. Penso e vejo o sol, de novo; as minhas escolhas por evitar as escadas automáticas, no metrô, ao longo do caminho - existia alguma disposição natural para tudo o que, inclusive preguiçosamente, sublinhasse a vontade de vida. 

É provável que justamente essa vontade tenha estimulado a leitura, entusiasmada, de Cuatro amigos, livro que peguei emprestado da minha irmã, por cima de um comentário ambíguo, porque fora um best seller na Espanha, com uma quantidade imensa e excessiva de gírias, explicou ela, que fazem o livro soar bobo e adolescente diversas vezes. Mas aí, acho agora, achei também enquanto eu lia, esfarelando o corpo molhado com os grãos de areia; aí, repito, ficava a isca que chegou em mim: eu era bobo e adolescente, sendo bobo e adolescente, crescendo e envelhecendo, bobo e - tivesse como - efervescente para sempre. 

Então li a história sobre os quatro amigos, como pausa entre leituras de Cortázar, Ramón Ribeyro, Echenique e Sábato, com uma urgência reveladora sobre as minhas bobeiras e, ao mesmo tempo, a minha profunda satisfação com a maneira como Trueba faz as saudades infiltrarem diálogos bestas, que não se repetem, nem depois, nem mais. E assim eu encontrava a saudade, saudade que sempre tive das coisas que dividi - e me dividiram entre pessoas de quem guardo as melhores lembranças, ainda que sejam as melhores por serem as únicas que eu pude ter. 

Trueba escreve sobre a amizade.

Foi diante desse pano de fundo que li, alguns anos mais tarde, o incomparável Saber perder, dos preferidos da vida jovem adulta que acolhe os últimos respiros do tudo ainda pode acontecer, caramba. E, página a página, selecionava trechos que postei num blog velho, com alguns poucos leitores fiéis pedindo indicação sobre fonte e tradução.

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Por isso, na semana passada, comprei a recém publicada versão nacional de Blitz, livro que estava separado na lista que precisava ir buscar, ou pedir para trazer da Espanha. É um romance curto, breve, numa edição gostosa de folhear, entre mancha, imagens e ilustrações. É a história de Beto, da separação de Beto durante a viagem para a final de um concurso de paisagismo, em Munique. O tempo é o tempo da crise sem fim da Espanha, do desencantamento com o projeto de uma Europa humana, forte e universal. Nada disso. Beto anda inseguro com os caminhos profissionais e desmonta ao ser trocado por um cantor uruguaio, ex-namorado de Marta, agora sua ex-namorada, tão linda, tão linda que nunca vi igual - lemos, quase no fim da trama, quando Beto e um arquiteto rival dividem a mesma fileira de poltronas no avião. 

Até o código da reserva do voo de volta lembrava que tudo andava mal: M4RTA.

No percurso do protagonista, despedaçado por uma vida treintañera que começa a apontar para a dispersão da esperança, fatal, Beto se envolve com uma das organizadoras da premiação, alemã, divorciada, podia ser a sua mãe. E, assim, apesar de a orelha destacar o tom tragicômico das piadas que atravessam os encontros entre quem existe no livro, o que fica, de novo, é o jeito doído que Trueba encontra para mostrar o bonito da vida acontecendo, e se despedindo, inevitavelmente. 

Sempre me lembro, continuei, de algo que ouvi acerca de Buñuel: ele falava que era ateu, que não acreditava em Deus, salvo no deus inventado pelos homens, na mentira que erguiam para se consolar.

art school

Because Bowie’s most important lesson was how to be an artist. It’s become a truism that he influenced generations of art-school students and it’s because he was art school for so many.
— Dan Fox - https://frieze.com/article/hang-on-to-yourself

tudo, tudo, tudo, tudo devia ter me deixado feliz

Sigo na cola de Karl Ove Knausgård, mais lento, porque estou precisando intercalar com dezenas de outras leituras. De novo, acontece de o leitor cruzar com passagens imensamente delicadas, por baixo de um manuseio de linguagem que, às vezes, pode parecer seco. No caso desse trecho abaixo, vi e senti palavras parecidas em relação a tanta gente, a tanta vida. 

Soltei um suspiro. A iluminação elétrica no teto, que se espalhava por cima de todo o saguão, e que aqui e acolá projetava reflexos contra uma janela, uma superfície metálica, uma laje de mármore ou uma xícara de café, devia ser o bastante para me deixar feliz por estar aqui. As centenas de pessoas que se moviam como sombras de um lado para outro no saguão deviam ser o bastante para me deixar feliz. Tonje, com quem eu tinha passado os últimos oito anos, compartilhar a vida com ela, com a pessoa maravilhosa que era, devia ter me deixado feliz. Encontrar o meu irmão Yngve e os filhos dele devia ter me deixado feliz. Toda a música que existia, toda a literatura que existia, toda a arte que existia, tudo, tudo, tudo, tudo devia ter me deixado feliz. Mas em relação a toda a beleza do mundo, uma beleza quase esmagadora, eu era indiferente. Simplesmente era assim, e assim tinha sido por muito tempo e eu não aguentava mais, e portanto tinha decidido tomar uma providência. Eu queria voltar a ser feliz. Parece idiota, eu não podia dizer uma coisa dessas para ninguém, mas era assim.
— "Um outro amor", p.152-53

Crazy emotions

Everyone has been seized by an indefinable intoxication. The small cabaret is about to come apart at the seams and is going to be a playground for crazy emotions.
— Ball, 1916 - http://www.bbc.com/culture/story/20160719-cabaret-voltaire-a-night-out-at-historys-wildest-nightclub

Por mais que a gente se esforce para imaginar o que seria um cabaré, como o Voltaire, num país europeu resguardado da Primeira Guerra, não é fácil alcançar o que podem ter significado as sessões, as bebedeiras, as apresentações, as criações, as pegações, as experimentações e todas as locuritas dos dadaístas de Zurique. 

Tento relacionar com os movimentos e produções contemporâneos meus, pensar no tipo de bar que poderia receber uma revolução cultural, no tipo de artista que bagunçou o padrão de ideias desse trânsito século XX-XI, e não é fácil apostar em nada em especial. Tem um palpite aqui, outro ali, mas identificar alguma força criativa capaz de reconfigurar o comportamento de quem tem necessidade de criar, quando a lógica ainda pede para produzir, é pouca brincadeira.

Wow

Surge esse clipe do Beck, com habilidade precisa para pinçar - talvez ironicamente, e por isso fazendo as vezes de crítica e elogio ao mesmo tempo - imagens inconfundivelmente sedutoras da cultura americana. Tem Western, tem rock, tem mosh, tem slow motion, tem saturação, tem espetáculo, tem pet, tem minimiss, tem game, tem simulacro, tem plasticidade em tudo que existe de natureza e fabricação no imaginário de um dos maiores impérios da história do homem. 

Um vídeo assim, vestindo a letra que já tinha circulado antes, aos olhos de alguém de hoje, São Paulo, Brasil - leia-se "eu" -, despista a patrulha da razão para cobrir o corpo com os infinitos estímulos sensíveis de uma cultura midiatizada em incontáveis graus. Não é de hoje: Beck vai preparando cama no panteão da mitologia pop que abriga um Bowie.