Sociofobia

Uma das partes boas de ler ensaios contemporâneos, sobre temas da contemporaneidade, diz respeito a certa aposta que essas leituras exigem de quem lê. Quer dizer, ao ouvir uma opinião, bem costurada e fundamentada, sobre questões nas quais nos vemos envolvidos diariamente, parece que nos sentimos obrigados a, a partir da nossa experiência imediata, dar nossa versão. 

Mais ou menos isso aconteceu comigo enquanto navegava as páginas de Sociofobia, do César Rendueles, editado no Brasil pelo selo Sesc. 

O livro propõe uma - entre tantas possíveis - reconstrução dos fundamentos das relações sociais diante da introdução de inovações tecnológicas, dos primórdios da Modernidade para cá. De que maneiras os homens trabalham por relacionar-se entre si, desde os tempos do mercantilismo desenfreado que entregará, no século XX, as teorias econômicas neoliberais, marcadas sempre, e profundamente, pela experiência da técnica nas diversas ondas da Revolução Industrial (rebatizada de acordo com a conveniência do momento)? Como essas transformações prévias nas relações entre os homens prepararam o terreno para a emergência das redes sociais digitais?

Rendueles basicamente aponta para uma trajetória do desmanche dos laços comunitários e sociais que, na sua visão, sobreviveram, como herança das sociedades primitivas, até a Idade Média. Do Renascimento em diante, a urgência pelo desenvolvimento técnico teria dissolvido gradativamente as bases de homens conectados a homens. E essa história da desconexão, em nome principalmente da produção de uma riqueza não mais compartilhada, é a história que, de acordo com o autor, recomenda prudência ante a celebração do mundo digital e do ciberutopismo.

Discutindo ricamente temas como direito autoral e as origens do copyleft, Rendueles desmistifica a rede livre e democrática, revelando bastidores de interesses privados e lógicas neoliberais. Mantendo sempre o cuidado de destacar as falhas da tradição de projetos "de esquerda", destacando a crítica à centralização totalitária das tentativas comunistas de coordenação social, o autor surpreende ao aproximar os mecanismos "procedimentais" por trás da ideologia do direito autorial livre da crença numa suposta autorregulamentação positiva do sistema de preços em economias neoliberais. 

O texto é claro e acessível, apesar de ser bastante denso em alguns momentos. De maneira clara, não tão parcial quanto se poderia imaginar, Rendueles escreve um ensaio que coincide com algumas desconfianças pessoais que tenho diante do oba-oba deslumbrado que ronda a febre de start-ups e a dita economia do compartilhamento. O cool manejado por indústrias responsáveis por cadeias de produção repletas de miséria requer dobrada atenção. 

Minha aposta: Rendueles parece ter razão.

Walter Benjamin es el coleccionista nómada que no para de adquirir y que lo va perdiendo todo

Gracias al testimonio de una compañera de huida sabemos cuál fue el último objeto de valor que conservaba Walter Benjamin: un reloj antiguo, de oro, un resto arqueológico de vida burguesa, un recuerdo de familia.
— Antonio Muñoz Molina: http://cultura.elpais.com/cultura/2016/12/28/babelia/1482927710_892791.html

Wow

Surge esse clipe do Beck, com habilidade precisa para pinçar - talvez ironicamente, e por isso fazendo as vezes de crítica e elogio ao mesmo tempo - imagens inconfundivelmente sedutoras da cultura americana. Tem Western, tem rock, tem mosh, tem slow motion, tem saturação, tem espetáculo, tem pet, tem minimiss, tem game, tem simulacro, tem plasticidade em tudo que existe de natureza e fabricação no imaginário de um dos maiores impérios da história do homem. 

Um vídeo assim, vestindo a letra que já tinha circulado antes, aos olhos de alguém de hoje, São Paulo, Brasil - leia-se "eu" -, despista a patrulha da razão para cobrir o corpo com os infinitos estímulos sensíveis de uma cultura midiatizada em incontáveis graus. Não é de hoje: Beck vai preparando cama no panteão da mitologia pop que abriga um Bowie.